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A AMAZÔNIA FINALMENTE TEM MARCA!

abril 29, 2026

Porque um lugar precisa ter marca, e o processo criativo por trás da marca mais importante do nosso país

Tem semanas que a internet entrega algo que faz a gente parar. Que faz você fechar o celular, respirar fundo e pensar: é por isso que eu faço o que faço. Essa semana foi assim pra mim.

A RAI (Rotas Amazônicas Integradas), em parceria com a Embratur, lançou a primeira identidade visual oficial da Amazônia Legal Brasileira. O projeto foi desenvolvido pela FutureBrand São Paulo — e eu precisava compartilhar com vocês porque ele me tocou de um jeito que não esperava.

Coloca o vídeo pra rodar antes de continuar lendo. Sério.

A maioria das marcas de destino turístico começa do mesmo lugar: uma folha em branco, um briefing, uma moodboard. Parte da abstração e chega num símbolo.

Essa foi diferente. Ela fez o caminho inverso.

A equipe da FutureBrand não partiu de abstrações ou de símbolos genéricos da floresta. Os designers analisaram imagens de satélite da bacia hidrográfica amazônica e mapearam as coordenadas reais do Rio Amazonas e de seus afluentes. Ao estudar as curvas, meandros e traçados naturais das águas, encontraram formas que correspondiam a cada letra do alfabeto.

As letras não foram desenhadas. Foram descobertas.

A iniciativa transformou os contornos de 25 mil quilômetros de vias navegáveis em um alfabeto único. Uma tipografia que, no sentido mais literal da palavra, não poderia existir em nenhum outro lugar do mundo.

É o tipo de insight criativo que parece simples depois que você vê é impossível antes. Esse é o sinal de que é genial.

A construção do projeto envolveu uma rede de colaboradores regionais, incluindo fotógrafos, ilustradores e letristas dos estados amazônicos, garantindo a essência e o pertencimento.

Entre os colaboradores estão os ilustradores Cristo, Winy Tapajós, Malu Menezes e Beatriz Belo; os fotógrafos Ori Junior e Bob Menezes; e o Instituto Letras que Flutuam, com o letrista Odir Abreu. A produção audiovisual ficou com a Marahu, produtora do Pará.

E é aqui que eu preciso parar e falar de uma artista que acompanho há um tempo: Winny Tapajós.

Winny é do povo Tapajós, que vive na aldeia Karidade, no território indígena Cobra Grande, em Santarém (PA), mas mora desde criança em Palmas, no Tocantins. Com um trabalho cheio de representatividade nortista, ela se inspira nas suas vivências para desenvolver seus projetos, sem estereotipar pessoas, comportamentos ou hábitos — usando como matéria-prima para a sua arte o que viu onde cresceu. (O Liberal)

Ela também ilustra para a FARM Rio, e quem acompanha o universo de moda brasileira já conhece bem esse traço vibrante, cheio de fauna, floresta e identidade.

Sobre o processo criativo no projeto Amazônia, a artista afirmou que teve liberdade para desenvolver sua contribuição a partir da base já existente. “Eles me deixaram bem livre. Eu levei o meu olhar, sabendo da responsabilidade dessa identidade visual. Construí a ilustração sobre a logo que eles já tinham e tentei representar todos os estados.” (Jornalopcao)

Ela compartilhou o processo criativo no Instagram e eu fiquei vidrada. Se você ainda não segue, anota aí: @winnytapajos — é um trabalho que merece ser acompanhado de perto.

Por que um lugar precisa de uma marca

Por anos, a narrativa sobre a Amazônia foi dominada por vozes estrangeiras. ONGs, governos de outros países e a mídia internacional pautaram a discussão, muitas vezes criando uma percepção global de que a floresta é um “patrimônio da humanidade” desgarrado de uma identidade nacional, ou pior, um território sem dono e mal cuidado.

Uma marca muda isso. Ela é uma declaração de existência. Ela diz: nós existimos, temos nome, temos história, e somos nós quem contamos.

Cacau, açaí, guaraná, castanha, óleos vegetais, cosméticos naturais, tudo isso disputava mercado internacional sem um selo visual que agregasse valor de origem. Agora, com a marca oficial, esses produtos podem carregar uma identidade comum, reconhecível e estratégica.

O branding deixa de ser apenas estético e passa a ter função econômica direta. E é exatamente aí que ele fica poderoso de verdade.


O Brasil que o mundo está vendo

Esse lançamento chega num momento em que o Brasil está sendo olhado com outros olhos lá fora. O lançamento da marca ocorre em um momento em que a Amazônia ganha ainda mais visibilidade no cenário global, seja pelo debate ambiental, seja pelo potencial econômico ligado à bioeconomia e ao turismo sustentável.

A narrativa está mudando. E esse projeto faz parte disso uma narrativa construída de dentro pra fora, com artistas da região, com a água real dos rios, com o olhar de quem vive e respira aquela floresta.

Isso é o que referências visuais verdadeiras fazem: elas não decoram. Elas fundamentam. Elas dizem de onde você vem antes mesmo de você abrir a boca.


Por que isso me tocou tanto

Depois de tantos anos de mercado, tem momentos em que a gente se pergunta se ainda sente o que sentia no começo. Se ainda vibra com uma boa ideia. Se aquele fogo ainda está lá.

Esse projeto me lembrou que sim. Ele está.

Ver uma tipografia nascida dos rios. Ver uma artista indígena colocar o seu olhar sobre um projeto de identidade nacional. Ver o Brasil sendo apresentado ao mundo com autenticidade e beleza — isso me devolveu algo que eu precisava sentir.

É por isso que eu escolhi publicidade. É por isso que eu continuo aqui.

E você? O que faz você lembrar por que escolheu o que escolheu?

Sobre a autora:

NATHÁLIA ENRIQUES

Publicitária, Redatora e Fundadora da Agência Pólen e Newsletter @Polinizando no Substack

→ Instagram: @nathaliaenriques @agencia.polen

→ LinkedIn: /nathalia-enriques

→ Site: www.agenciapolen.com.br

Texto original: Polinizando

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